Os Ataques Espirituais de Jó




Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e este era homem temente a Deus; e desviava-se do mal.


E vindo um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles... Então, o Senhor disse a Satanás: De onde vens? E Satanás respondeu ao Senhor e disse: De rodear a Terra e passear por ela! E disse o Senhor a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na Terra semelhante a ele, homem sincero, e reto, e temente a Deus, e desviando-se do mal! Então, respondeu Satanás ao Senhor e disse: Porventura, teme Jó a Deus debalde? A obra de suas mãos abençoaste! Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema de ti na tua face… E disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo quanto tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão! E Satanás saiu da presença do Senhor...


E sucedeu um dia, em que seus filhos e suas filhas comiam e bebiam vinho na casa de seu irmão primogênito, que veio um mensageiro a Jó e lhe disse: Eis que um grande vento sobreveio dalém do deserto, e deu nos quatro cantos da casa, a qual caiu sobre os jovens, e morreram! Então, Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou, e disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor! Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

E, vindo outro dia, em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles apresentar-se perante o Senhor. Então, o Senhor disse a Satanás: De onde vens? E respondeu Satanás ao Senhor e disse: De rodear a Terra e passear por ela. E disse o Senhor a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na Terra semelhante a ele, homem sincero e reto, temente a Deus, desviando-se do mal; e que ainda retém a sua sinceridade, havendo-me tu incitado contra ele, para o consumir sem causa. Então, Satanás respondeu ao Senhor e disse: Estende, porém, a tua mão, e toca-lhe nos ossos e na carne, e verás se não blasfema de ti na tua face! E disse o Senhor a Satanás: Eis que ele está na tua mão; poupa, porém, a sua vida.


Então, saiu Satanás da presença do Senhor e feriu a Jó de uma chaga maligna, desde a planta do pé até ao alto da cabeça... E Jó, tomando um pedaço de telha para raspar com ele as feridas, assentou-se no meio da cinza… Então, sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus e morre! Mas ele lhe disse: Como fala qualquer doida, assim falas tu; receberemos o bem de Deus e não receberíamos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios.


Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo este mal que tinha vindo sobre ele, vieram, cada um do seu lugar: Elifaz, o temanita, e Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita; e concertaram juntamente virem condoer-se dele e consolá-lo.


Depois disto, abriu Jó a boca e amaldiçoou o seu dia: Porque o que eu temia me veio, e o que receava me aconteceu! Nunca estive descansado, nem sosseguei, nem repousei, mas veio sobre mim a perturbação! Entre pensamentos de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo, sobreveio-me o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram… Então, um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos da minha carne; parou ele, mas não conheci a sua feição; um vulto estava diante dos meus olhos; e, calando-me, ouvi uma voz que dizia: Seria, porventura, o homem mais justo do que Deus? Seria, porventura, o varão mais puro do que o seu Criador? Eis que nos seus servos não confia e nos seus anjos encontra loucura; quanto mais naqueles que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está no pó! Porventura, não passa com eles a sua excelência? Morrem, mas sem sabedoria...


Os terrores de Deus se armam contra mim! Porventura, não tem o homem guerra sobre a Terra? Assim me deram por herança meses de vaidade, e noites de trabalho me prepararam... Deitando-me a dormir, então, digo: Quando me levantarei? Mas comprida é a noite, e farto-me de me voltar na cama até à alva. Dizendo eu: Consolar-me-á a minha cama, meu leito aliviará a minha ânsia! Então, me espantas com sonhos e com visões me assombras!

Que é o homem, para que tanto o estimes, e ponhas sobre ele o teu coração, e cada manhã o visites, e cada momento o proves? Se pequei, que te farei, ó Guarda dos homens? E por que me não perdoas a minha transgressão, e não tiras a minha iniquidade?


Ainda que chamasse, e ele me respondesse, nem por isso creria que desse ouvidos à minha voz: Porque me quebranta com uma tempestade, e multiplica as minhas chagas sem causa. Nem me permite respirar; antes, me farta de amarguras!


Desvia a tua mão para longe de mim e não me espante o teu terror! Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado. O meu rosto todo está descorado de chorar, e sobre as minhas pálpebras está a sombra da morte. Porventura, não estão zombadores comigo? E os meus olhos não contemplam as suas amarguras?


Juntas vieram as suas tropas, e prepararam contra mim o seu caminho, e se acamparam ao redor da minha tenda! Vêm contra mim como por uma grande brecha e revolvem-se entre a assolação. Sobrevieram-me pavores; como vento perseguem a minha honra, e como nuvem passou a minha felicidade! E agora derrama-se em mim a minha alma; os dias da aflição se apoderaram de mim!


Todavia, aguardando eu o bem, eis que me veio o mal; e esperando eu a luz, veio a escuridão! Levantando-me na congregação, clamo por socorro! A mão de Deus me tocou! Por que me perseguis assim como Deus?


Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a Terra. E depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus! E Deus salvará ao humilde e livrará até ao que não é inocente; sim, ele será libertado pela pureza de tuas mãos.


Mas ele sabe o meu caminho; prove-me, e sairei como o ouro! Do preceito de seus lábios nunca me apartei e as palavras da sua boca prezei mais do que o meu alimento. Porque cumprirá o que está ordenado a meu respeito…


Porque qual será a esperança do hipócrita, havendo sido avaro, quando Deus lhe arrancar a sua alma? O vento oriental o levará, e ir-se-á; varrê-lo-á com ímpeto do seu lugar. Porventura, dará o sábio, em resposta, ciência de vento? E encherá o seu ventre de vento oriental? O seu ventre prepara enganos. O meu íntimo ferve e não está quieto…


Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência!


Na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso os faz sábios: Para apartar o homem do seu desígnio e esconder do homem a soberba; para desviar a sua alma da cova e a sua vida, de passar pela espada. Também na sua cama é com dores castigado, e com a incessante contenda dos seus ossos.


Se ele recolhesse para si o seu espírito e o seu fôlego, toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó… Eles, num momento, morrem; e, até à meia-noite, os povos são perturbados e passam, e os poderosos são tomados sem mão…


Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares para declarar ao homem a sua retidão, então, terá misericórdia dele e lhe dirá: Livra-o, que não desça à cova; já achei resgate!


Deveras, orará a Deus, que se agradará dele, e verá a sua face com júbilo, e restituirá ao homem a sua justiça! Olhará para os homens e dirá: Pequei e perverti o direito, o que de nada me aproveitou... Mas Deus livrou a minha alma de ir para a cova; e a minha vida verá a luz! Eis que tudo isto é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem, para desviar a sua alma da perdição e o alumiar com a luz dos viventes!


E quanto ao que disseste, que o não verás, juízo há perante ele; por isso, espera nele! Ele sela as mãos de todo homem, para que conheçam todos os homens a sua obra…


Depois disto, o Senhor respondeu a Jó de um redemoinho e disse: Porventura, também me condenarás, para te justificares? Ou tens braço como Deus? Suspende a Terra sobre o nada!


Então, respondeu Jó ao Senhor e disse: Por isso, me arrependo no pó e na cinza…


Sucedeu, pois, que, acabando o Senhor de dizer a Jó aquelas palavras, o Senhor disse a Elifaz, o temanita: O meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei, para que eu vos não trate conforme a vossa loucura; porque vós não falastes de mim o que era reto como o meu servo Jó!


E o Senhor virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o Senhor acrescentou a Jó outro tanto em dobro a tudo quanto dantes possuía!

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